MORDE UM CÃO
antes que se perceba
que o tempo é uma coisa embolada
vem o estouro
era ida e vinda
tudo ainda quieto
água rolando perto
ele vem
os pés aos giros
a cauda brilhando arrastada
em pleno pé do dia
ninguém para avisar
largada no leito da rua
pede passagem um ser estranho
que desfigura o lento sossego
alto lá, medo meu, pode passar
ela, de canto mansa mansa
desliza na sombra a folhagem rajada
feito serpente jibóia
muda de mãe para a filha
e ao mínimo descuido
lança-se à carreira toda
no entrave cão da manhã cinzenta
sentinela avisa a hora e o lugar
úmida selva de musgos e heras
úmida hora pingando o bafo de predador
em súbito borbotar da pele
logo a carne em chamas
de infectas mandíbulas em combate
vento forte não apaga brasa, incendeia
em cima da montanha o que subiu
tem que descer
a boca, toda a cabeça
atrás de sangue
outra vez a rajada
consertar a ferida morna
expõe o cão a mordida e o dono
quem deveria estar preso agora
