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cartógrafo de letras, sensações e pássaros

9.28.2026

TEXTO 186 : MORDE UM CÃO

 



MORDE UM CÃO


antes que se perceba
que o tempo é uma coisa embolada
vem o estouro

era ida e vinda
tudo ainda quieto
água rolando perto
ele vem

os pés aos giros
a cauda brilhando arrastada
em pleno pé do dia
ninguém para avisar

largada no leito da rua
pede passagem um ser estranho
que desfigura o lento sossego
alto lá, medo meu, pode passar

ela, de canto mansa mansa 
desliza na sombra a folhagem rajada
feito serpente jibóia 
muda de mãe para a filha
e ao mínimo descuido 
lança-se à carreira toda 

no entrave cão da manhã cinzenta
sentinela avisa a hora e o lugar

ali eu, ali ela também a platéia
úmida selva de musgos e heras 
úmida hora pingando o bafo de predador
em súbito borbotar da pele
logo a carne em chamas
de infectas mandíbulas em combate

vento forte não apaga brasa, incendeia
em cima da montanha o que subiu
tem que descer
 
empurro de volta
a boca, toda a cabeça 
em espinhos feito lança

ela repete a investida
atrás de sangue 
outra vez a rajada

cheia de raiva ela é livre

perdidos no espaço, tudo órbitas
ofuscada visão: vida de cão
cadela laica, olhai por nós

ela toda selva toda máquina
esqueceu por um segundo
a missão que lhe enchia os dentes

e aí sim
vem o contragolpe

enquanto ela corre, recorre
nem no segundo chute não desarma
no ultimo golpe é que arrefece

reclama
a própria natureza desfigurada

e esquece quem era a presa

que agora vai assim, soprada livre
lavar os trapos a pé
consertar a ferida morna 
a trama exposta de pelos e ossos

dela restará a assinatura

um recado encravado 
do medo da raiva a que jaz 

arreganhada como aqueles dentes
quem foi a vitima do abandono
expõe o cão a mordida e o dono 
quem deveria estar preso agora